Trump fez 21 exigências a Lula para baixar tarifas: de “dissidentes políticos” nas eleições a minerais críticos
Por Denise Moraes
O governo dos Estados Unidos apresentou ao Brasil uma proposta com 21 exigências para negociar a redução do tarifaço sobre produtos brasileiros — incluindo uma demanda explícita para que “dissidentes políticos” não fossem impedidos de participar das eleições presidenciais de 2026. A revelação foi feita com exclusividade pelo Estadão, que obteve a íntegra do documento entregue ao Itamaraty em 16 de outubro de 2025.
A proposta, denominada “Declaração Conjunta sobre as Relações de Segurança e Econômicas entre os EUA e o Brasil”, ia muito além de questões comerciais e abrangia temas políticos, econômicos e até eleitorais. O governo brasileiro classificou o documento como “inaceitável” e o arquivou sem sequer discuti-lo.
As exigências políticas
O ponto mais sensível do documento exigia que o Brasil garantisse a realização de eleições presidenciais “livres e justas” e que não detivesse, prendesse ou limitasse “arbitrariamente” a participação de “dissidentes políticos” no processo eleitoral de 2026. O documento não especificava nomes, mas a exigência retoma argumento usado por Trump quando anunciou o tarifaço de 50% em julho de 2025, quando citou o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no STF e classificou a situação como “caça às bruxas”.
O Itamaraty rebateu, afirmando que o termo “dissidente político” não tem validade jurídica em uma democracia como a brasileira. A proposta também cobrava garantias relacionadas à liberdade de expressão e à aplicação de sanções financeiras determinadas pelo Tesouro americano em território brasileiro.
As exigências econômicas
No campo econômico, os EUA exigiram:
Eliminação de tarifas sobre etanol, produtos químicos, máquinas, veículos automotivos e bens de alta tecnologia dos EUA
Direito de preferência na aquisição de jazidas de minerais críticos e terras raras, com informação prévia sobre vendas no setor de mineração
Limitação de investimentos de “entidades estrangeiras preocupantes” — expressão usada para se referir a países como China, Rússia, Coreia do Norte e Irã
Compra de aviões da Boeing por companhias aéreas brasileiras
Combate ao desmatamento ilegal e à pesca ilegal
Proibição de importação de bens produzidos com trabalho forçado
A proposta mirava explicitamente a China ao exigir que o Brasil limitasse investimentos de empresas estatais chinesas em setores estratégicos. O caso mais sensível envolvia a venda das operações de níquel da Anglo American no Brasil para a MMG, grupo controlado pela estatal chinesa China Minmetals, em negócio de US$ 500 milhões.
Lula rejeita e arquiva proposta
Em entrevista à Rádio Itatiaia nesta quinta-feira (17), o presidente Lula confirmou que a proposta foi rejeitada e classificou as exigências como “inaceitáveis”. “Esse documento foi a primeira comunicação que nós recebemos e recusamos. Nem discutimos o documento, porque era inaceitável o documento de um país querer ter prioridade na riqueza mineral do nosso País. Esse documento não foi discutido, não será discutido e não está sendo discutido”, afirmou.
Reservadamente, o Itamaraty tratou os pedidos como “bullying diplomático” e afirmou que a proposta “nasceu morta”, pois jamais esteve na lista efetiva de barganhas em reuniões oficiais.
Segunda proposta e retomada das negociações
Em 9 de janeiro de 2026, os EUA enviaram uma segunda proposta mais enxuta, com sete setores e 14 tópicos, deixando de lado os temas de política doméstica — mas repetindo as demandas de eliminação de tarifas e privilégios em minerais críticos. A proposta foi novamente rejeitada.
Apesar do impasse, Brasil e EUA retomaram as negociações no fim de agosto, após conversa telefônica entre os dois presidentes. Uma nova reunião presencial está prevista para o fim de setembro, à margem de uma reunião do G20 nos Estados Unidos. Até então, continuam em vigor duas rodadas de tarifas norte-americanas que, combinadas, chegam a 37,5% e abrangem cerca de 23% das exportações brasileiras.
Da Redação





