EUA acusam Brasil de “falhar” no combate ao PCC e ao Comando Vermelho; governo brasileiro rebate
Por Denise Moraes
O governo dos Estados Unidos acusou o Brasil de ter “falhado” no combate às facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), classificadas por Washington como organizações terroristas estrangeiras. A crítica consta em um relatório assinado pelo presidente Donald Trump, enviado ao Congresso americano na terça-feira (15) e divulgado pelo Departamento de Estado nesta quarta-feira (16).
No documento, Trump afirma que “enquanto muitos governos do Hemisfério Ocidental estão tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil falhou em confrontar” as duas facções. Segundo o relatório, o PCC e o Comando Vermelho “transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína” e representam uma “ameaça crescente à paz e à segurança em todo o mundo”.
“O governo brasileiro precisa urgentemente adotar medidas firmes para enfrentá-las e derrotá-las antes que se espalhem e cresçam”, diz o texto.
O PCC e o Comando Vermelho foram classificados como organizações terroristas pelos EUA em junho deste ano, mediante decisão assinada pelo secretário de Estado, Marco Rubio.
A designação foi uma derrota diplomática do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que se opunha à medida por considerá-la um risco à soberania nacional, por abrir espaço para ações militares norte-americanas sob o pretexto de combate ao terrorismo.
Apesar de o Brasil não constar na lista formal dos 23 países identificados como grandes produtores ou rotas de trânsito de drogas — e tampouco ter sido classificado como governo que “falhou de forma demonstrável” em suas obrigações antidrogas —, Trump reservou um trecho específico do documento para fazer uma crítica direta ao governo brasileiro. A menção representa uma mudança em relação ao relatório de 2025, quando o país não era citado.
O mesmo documento elogia governos aliados de Trump na América Latina, como Argentina, Equador e El Salvador, além do governo interino de Delcy Rodríguez na Venezuela. Diplomatas brasileiros avaliam, nos bastidores, que o documento é seletivo e reforça o viés político da política externa americana na região.
Governo brasileiro rebate
Em nota divulgada na noite desta quarta-feira (16), o governo brasileiro refutou as acusações e negou que existam falhas ou omissões no enfrentamento ao crime organizado transnacional.
O Ministério da Justiça afirmou que as alegações dos EUA desconsideram medidas adotadas pelo governo federal, como a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, que prevê penas mais severas para líderes de facções e cria mecanismos para asfixiar suas operações.
A nota também destacou “as dezenas de milhares de operações de combate ao crime por forças federais, com bilhões de reais de prejuízo aos criminosos”, bem como as ações implementadas em 2026 no âmbito do Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio, que sufoca economicamente as facções, fortalece o sistema prisional e enfrenta o tráfico de armas.
O governo brasileiro também ressaltou a “robusta cooperação já existente entre Brasil e EUA” e citou proposta entregue pessoalmente pelo presidente Lula em 7 de maio, em Washington, com detalhamento de medidas conjuntas de enfrentamento à lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e combate ao tráfico de armas. “Até o momento, permanecemos no aguardo da possível resposta do governo dos EUA”, afirmou a nota.
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