ONU prepara cúpula histórica com 150 líderes em Nova York
Clima, Irã, Ucrânia, Gaza e IA dominam agenda
Por Denise Morais
A Organização das Nações Unidas (ONU) realiza a partir da próxima terça-feira (22), em Nova York, a 81ª Assembleia-Geral — sob o tema “Restaurar a Confiança, Gerenciar a Transformação: Uma ONU que Funciona para Todos”.
Será a última cúpula do secretário-geral António Guterres, que deixa o cargo no final de dezembro, após dez anos à frente da instituição, com um diagnóstico alarmante sobre o estado do mundo.
A espera-se a presença de cerca de 150 chefes de Estado e de governo durante a Semana de Alto Nível, que se estende até 28 de setembro. Guterres, que apelidou o evento de “Copa do Mundo da diplomacia”, tem mais de 150 reuniões bilaterais agendadas.
“A cada dia as coisas pioram um pouco”
Em coletiva de imprensa às vésperas da cúpula, Guterres ofereceu um diagnóstico sombio. “A cada dia as coisas pioram um pouco. Não há nenhuma melhora em parte alguma”, disse, ao expressar temor de “um risco de explosão” em escala global. O secretário-geral identificou três “ameaças existenciais”: a inteligência artificial sem controle, a crise climática e o aprofundamento intolerável das desigualdades.
“Eu acho que há 10 anos, ninguém poderia imaginar que chegássemos a uma situação como a que enfrentamos hoje. Seria difícil imaginar um quadro tão ameaçador”, afirmou.
Guerras no centro da agenda
A guerra entre Estados Unidos e Irã, que entrou no sétimo mês, estará no centro de boa parte dos discursos, embora não se preveja avanços sem negociações diretas entre Washington e Teerã. O presidente americano, Donald Trump — crítico ferrenho do multilateralismo —, discursará na manhã de terça-feira. A delegação iraniana, incluindo o presidente Masoud Pezeshkian, foi autorizada a viajar para Nova York, mas enfrentará restrições de viagem.
A guerra na Ucrânia, que se prolonga há mais de quatro anos, também ocupará lugar de destaque. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, discursará na quarta-feira e participará de reunião do Conselho de Segurança sobre o conflito. A Rússia será representada pelo ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov — Putin, como de hábito, não comparece.
Em Gaza, o conflito se aproxima de dois anos, com crise humanitária gravíssima.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu — alvo de mandado do Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra —, deve discursar na quinta ou sexta-feira, apesar dos apelos do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, para que ele seja detido. Os EUA não reconhecem o mandado do TPI. Pelo segundo ano consecutivo, os americanos negaram visto ao presidente palestino Mahmoud Abbas, que participará por videoconferência.
Clima e inteligência artificial
Para a quarta-feira (23), está agendada uma Cúpula do Clima, convocada por Guterres, que reunirá líderes das principais economias, países desenvolvidos e em desenvolvimento, nações vulneráveis e os principais produtores e consumidores de energia.
Após um verão no Hemisfério Norte marcado por ondas de calor e fenômenos extremos, haverá também um dia dedicado à elevação do nível do mar — ameaça existencial para nações insulares.
A inteligência artificial será outro eixo central. Prevê-se que vários países apoiem o apelo de Guterres por uma “coordenação global” sobre IA, e é provável que surja uma reunião especial do Conselho de Segurança sobre o uso da tecnologia.
Ausências notáveis e sucessão de Guterres
Uma ausência notável será a do líder chinês Xi Jinping, que não fará escala em Nova York a caminho de Washington, onde se reunirá com Trump na quinta-feira. “Embora a China apoie plenamente o multilateralismo na ONU, há muito tempo considera esta semana de alto nível como um domínio dos Estados Unidos”, observou Daniel Forti, diretor de assuntos da ONU no International Crisis Group.
As principais potências também debaterão o futuro da organização, buscando um candidato de consenso para suceder Guterres, cujo mandato termina em 31 de dezembro. Não se preveem avanços durante a semana, embora os países com direito a veto possam aproveitar a reunião para selar um acordo. Muitas vozes clamam para que uma mulher presida as Nações Unidas pela primeira vez — atualmente, há três candidatas contra três homens.
As crises no Sudão, na República Democrática do Congo, no Haiti e em outros locais também serão tema de dezenas de reuniões públicas e privadas.
O Brasil, como de tradição, será o primeiro país a discursar no debate geral.





